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nov

É possível encontrar a esperança no sertão nordestino?

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Perguntei para algumas pessoas qual era a primeira imagem que lhes vinha à mente ao ouvir a palavra sertão, e as respostas foram praticamente às mesmas: seca. As reportagens que lemos sobre o lugar habitualmente focam essa condição extrema que os sertanejos enfrentam no nordeste brasileiro, e com isso nosso olhar, por vezes, se condiciona ao chão de terra rachado devido à falta de água.

Se levarmos em conta que uma cidade ou determinada região de um estado não são construídas por suas adversidades, logo chegamos à conclusão que existe muito mais histórias para contar. São os pés que pisam o chão rachado que falam muito mais sobre o sertão. As cabeças que suportam os inúmeros baldes d’águas diariamente demonstram a força e a garra pela sobrevivência, encontradas em todo sertanejo. E é nas crianças que se encontra a esperança do presente e do futuro.

 Patu e Almino Alfonso são duas cidades do Rio Grande do Norte que padecem com a seca. A primeira é uma micro região serrana a 310 km de Natal, a segunda tem os seus limites próximo à Paraíba. Patu é um lugar turístico onde se destacam a prática do voo livre e a devoção a Nossa Senhora dos Impossíveis, que anualmente leva centenas de pessoas em romarias ao Santuário do Lima, considerado uma das 7 maravilhas do Rio Grande do Norte. Almino Afonso não destoa no turismo, mas se faz potente na agricultura e na pecuária, onde, segundo dados de 2002 do IBGE, renderam para o PIB da região R$10,935 milhões.

 Embora ambas as regiões tenham características peculiares e que poderiam transformar a realidade dos sertanejos, o que impera é a desigualdade promovida pela má distribuição de renda. Além disso, sofrem com o tráfico que se aloja nas regiões rurais e de lá distribui suas drogas por todo o município. Assim, a violência se estende de uma região a outra, do rural ao urbano.

 Diante disso, os moradores de Patu e Almino Afonso contam com a ajuda da Visão Mundial, maior organização humanitária de proteção à infância do mundo – somente no Brasil, 80 mil crianças são atendidas anualmente pelos programas desenvolvidos pela Organização – para garantir o bem-estar de suas crianças.

 Os projetos são desenvolvidos em parceria com toda a comunidade. Com associações de moradores, clubes de mães, escolas, secretarias de saúde e outras instituições com o intuito de ajudar a promover o conhecimento das crianças por meio de atividades que despertem a criatividade e as permitem sonhar.

 Letícia, 10 anos, é uma das crianças apadrinhadas da Visão Mundial. Ela conta que uma das atividades que mais gosta são as aulas de música: “eu gosto de tocar tambor e outros instrumentos”. Mas quem encantou a menina realmente e a fez sonhar foi a sua professora. “A minha professora de ciências é a mais legal que eu tenho, acho que é por isso que quero ser igual a ela”, conta.

 O que a faz acreditar que isso pode dar certo morando no sertão? O amor. É a sua crença sobre o sentimento que a impulsiona a caminhar em direção aos seus sonhos. “O mais difícil por aqui é a falta de água, mas eu também sinto amor pelo sertão. Gosto dele e tenho fé nele”, diz Letícia.

 O sistema de apadrinhamento, onde pessoas voluntariamente ajudam com 50 reais ou mais uma criança mensalmente, é o que garante o atendimento da Organização, no sertão e em outras regiões do Brasil e do mundo. Além disso, é por ele que a garota encontra também a estrutura necessária para chegar à universidade e realizar o sonho de ser professora, por exemplo.

 Segundo a Cientista Social e Coordenadora de Desenho, Monitoramento e Avaliação da Visão Mundial, Aizianne Leite, esse tipo de ação tem gerado esperança nas crianças e seus familiares. “Antes do desenvolvimento dos projetos, o destino delas estava bem delineado. Havia uma privação do direito de sonhar. Agora, há uma expectativa de futuro”, afirma.

 Para Letícia, amar é o mesmo que gostar e ter fé em algo ou alguém. E essa perspectiva dela e de outras crianças tem mudado o ponto de vista a respeito do sertão nordestino. Mesmo vivendo em uma das piores secas dos últimos anos, foi na “fé-amor” pelo lugar em que moram que elas encontraram a esperança, porque puderam através do apoio de diversos padrinhos voltarem a sonhar e acreditar no lugar em que vivem.

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Texto: Leandro Barbosa – Fotos: André Soler

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